domingo, 22 de agosto de 2010

Intervenções seguem o desenvolvimento



O Plano Diretor de Transporte Urbano (PDTU) para a Região Metropolitana do Recife (RMR), elaborado em 2007, previa um colapso no trânsito na projeção para 2012 e 2020. Assim seria, se os governos municipais, Estadual e Federal nada fizessem para a melhor trafegabilidade da região. A esperança chegou com o anúncio da União em janeiro deste ano. Dos R$ 20 bilhões destinados ao PAC da Copa, R$ 8 bilhões foram reservados para obras de mobilidade urbana. A garantia foi pontapé para os governos começarem a submeter e executar projetos viários integrados a um sistema avançado de transporte público, como o Trânsito Rápido de Ônibus (TRO) e Veículo Leve sobre Trilhos (VLT). De que forma esses projetos estão sendo interligados, esta reportagem traz neste domingo. A especial continua no próximo domingo quando será abordado o aspecto arquitetônico dessas obras e a consequente e necessária manutenção delas.

Em dez anos, o número de veículos em circulação dobrou em Pernambuco. Passou dos consideráveis 881 mil automóveis, motocicletas e caminhões nas ruas, em 2000, para 1.748.610 milhão no ano atual. No início do século 21, a Região Metropolitana do Recife (RMR), onde se concentra metade deste número, já sentia os sintomas de estrangulamento no trânsito em pontos e horários críticos.

Hoje em dia, os pernambucanos entendem que não basta apenas paciência para enfrentá-lo diariamente. E também os gestores: projetos grandiosos e por vários anos presos ao papel estão sendo executados em pontos-chaves para começar a solucionar a situação crítica do tráfego através de alargamento de via, viadutos e pontes. Um grande canteiro de obras de olho no crescimento impulsionado pelo Complexo Industrial de Suape e da Copa Mundial de 2014, que mudará a dinâmica das cidades já a partir deste ano.

Quem passa hoje pelo Complexo de Salgadinho, em Olinda, já não sofre tanto com os engarrafamentos. Na última sexta-feira, a alça Leste do viaduto da avenida Pan Nordestina, que faz a interconexão com a avenida Presidente Kennedy, foi liberada para o tráfego. Iniciada em 2009, a obra ainda prevê uma alça Oeste, que fará o percurso contrário, prevista para ser concluída até 30 de novembro.

O viaduto vai beneficiar quem segue para o Recife ou Paulista. “As obras irão aumentar a capacidade de trafegabilidade no Grande Recife”, pontuou o secretário estadual de Transportes e diretor do DER-PE, Eugênio Morais.

Em média, são 15 mil veículos a mais, mensalmente, em Pernambuco, segundo dados do Detran-PE contabilizados nos seis primeiros meses deste ano. Para se ter uma dimensão do que isso significa, a média pernambucana chega próxima à do estado de São Paulo, que é de 20 mil veículos a mais por mês para uma população de 41.384.039 milhões de habitantes, cinco vezes maior do que a demografia de Pernambuco (IBGE/Censo 2000).

A intervenção no Complexo de Salgadinho corresponde à solução para a área Norte da RMR. Na Sul, os moradores de Jaboatão dos Guararapes veem a paisagem dos cinco quilômetros da PE-08, mais conhecida por Estrada da Batalha, mudar desde junho de 2009. O Viaduto da Ferradura, após o acesso à avenida Armindo Moura, e o lado Leste (Cabo/Recife) do Viaduto dos Prazeres, na entrada da Muribeca, foram inaugurados este ano. O conjunto de obras de requalificação da via deve ser concluído em julho de 2011.

No Recife, alargamento de viadutos e abertura de vias, como a duplicação para oito faixas de rolamento do viaduto Capitão Temudo, na Joana Bezerra, e a Via Mangue, também foram as saídas encontradas para melhorar o fluxo saturado da Zona Sul da Capital, Pina e Boa Viagem. Já na Oeste, estão previstos a duplicação da BR-408 e a construção de mais quatro viadutos que irão aumentar a circulação para quem faz a rota do TIP, no Curado IV, à Cidade da Copa, em São Lourenço da Mata, e dela à Carpina.

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Projetos de Norte a Sul em andamento


Faltava à região Norte da RMR uma intervenção viária de grande dimensão que interligasse os bairros de Pau Amarelo, Maria Farinha, Janga, em Paulista, e os de Olinda à Capital pernambucana. A solução para isso já estava prevista quando se construiu a 2ª Perimetral de Olinda, na década de 1970. É exatamente a continuação desta perimetral que ligará a PE-15 à ponte de Rio Doce, em Olinda, que fará a conexão com os locais citados. Amargado por anos no plano das ideias, a primeira parte do projeto da Via Metropolitana Norte, comandado pela Companhia de Habitação de Pernambuco (Cehab), deve ser iniciado ainda este mês.

Por cima do Terminal Integrado de Ônibus na PE-15 serão erguidos dois viadutos que conectarão a 2ª Perimetral à avenida que ladeia o Canal do Fragoso. A via, com 6,2 quilômetros de extensão, será duplicada para veículos, nos dois sentidos, e terá uma faixa exclusiva para ônibus. Antes disso, cabe à Cehab fazer a desapropriação dos 1,2 mil imóveis localizadas na via e a drenagem do canal para abertura da perimetral. Para esta etapa, o órgão captou R$ 165 milhões junto ao Programa Pró-Moradia, do Governo Federal.

De acordo com a diretora técnica Éryka Luna, no momento, está sendo licitado R$ 70 milhões para executar as desapropriações e indenizações. “Nesta semana deveremos ter o vencedor que trabalhará nas desapropriações”, afirmou. Parte dessas famílias irá para dois conjuntos habitacionais, com 840 unidades ao todo, a serem construídos em Jardim Atlântico 1 e 2. O custo para executar todo o projeto é de cerca de R$ 320 milhões.

Com o recurso captado pela Cehab, ainda será revestido metade do canal (três quilômetros). “Ao longo desses quilômetros, teremos em torno de dez obras (pontilhão, ponte, passarela). Isso tudo será construído, pois o Canal do Fragoso será alargado”, acrescentou Éryka.

Além do impacto social, a obra será um avanço para a mobilidade urbana da região. “O objetivo é deslocar o trânsito da parte antiga de Olinda, como o Varadouro, Carmo. Com isso, se cria uma nova Olinda, pela periferia da cidade, que desafogará as vias que hoje sofrem com o engarrafamento”, destaca o diretor de Engenharia e Planejamento do DER-PE, Francisco de Assis.

O projeto ainda inclui pista de ciclismo, praças e acessibilidade ao pedestre. De acordo com o engenheiro Bernardo Silva Monteiro, que coordenou a equipe técnica do projeto, os estudos de tráfego estimaram um volume médio diário de mais de 50 mil veículos, nos dois sentidos, ao final do décimo ano de utilização da nova via. “Além de reduzir os congestionamentos nos acessos da divisas Olinda/Recife e de dentro do próprio município, torna os deslocamentos mais econômicos, eficientes, seguros e convenientes”, concluiu.

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“Binário” está em processo de licitação

Para complementar as intervenções na região Sul da RMR, o Governo do Estado está licitando o projeto “Binário de Cajueiro Seco”, que ligará Piedade à Estação de Metrô de Cajueiro Seco, em Jaboatão dos Guararapes. Serão abertas duas grandes vias paralelas, em dois sentidos, que terão início na avenida Bernardo Vieira de Melo e chega através da construção de um viaduto até Cajueiro Seco e PE-08, mais conhecida por Estrada da Batalha.

A obra prevê vias exclusivas de ônibus que fará integração com o terminal do metrô, ônibus e Veículo Leve sobre Trilhos (VLT) a ser implantado em Cajueiro Seco. O orçamento é da ordem R$ 150 milhões. “É um projeto que vai trazer maior fluidez naquela região”, destaca o secretário de Transportes, Eugênio Morais.

A intervenção com 3,15 quilômetros de extensão começará pelo alargamento das ruas Domingos Sávio e São Sebastião - transversais da avenida Bernardo Vieira de Melo. Mais na frente, elas cortam o canal de Setúbal até chegar à Estação de Cajueiro Seco.

De acordo com o DER, a ideia é ligar este binário diretamente com a BR-101 Sul, através da construção de um elevado complementar. Como o binário também conta com pista exclusiva de ônibus, facilitará o deslocamento daqueles que hoje fazem o percurso do Cabo de Santo Agostinho, Suape e Ipojuca para Jaboatão e Centro do Recife.

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Novos modelos serão implantados

É ilusão pensar que a trafegabilidade de uma cidade se resolve somente com a abertura ou alargamento de vias e construção de viadutos, túneis e pontes. Dentro do conceito atual de mobilidade urbana, o pedestre, o adepto dos transportes alternativos e, principalmente, o passageiro, têm que ser prioridade. Para tanto, as obras viárias que estão sendo executadas devem incluir pista de ciclismo, corredores exclusivo de ônibus e acessibilidade para o pedestre e também o deficiente físico. “Precisamos de economizadores do espaço urbano e não desperdiçadores, como é o caso do carro”, defende o engenheiro César Cavalcanti, chefe do Departamento de Arquitetura e Engenharia da UFPE.

Em outubro, começa a funcionar na RMR o primeiro dos sete Veículos Leves sobre Trilhos (VLTs). O transporte se assemelha ao metrô do ponto de vista operacional, pois proporciona velocidade e conforto. Do aspecto financeiro, o custo de implantação é menor, pois não precisa investir em sistema de energia e na estrutura de estação. “Nessa questão, se parece com o ônibus, por possuir um motor a biodiesel. Ele tem a própria propulsão sem precisar montar um sistema elétrico”, explica o assessor da CBTU/Metrorec, Leonardo Beltrão, à frente do contrato do projeto. A RMR será a primeira a pôr na ativa o VLT entre as regiões metropolitanas do Brasil que receberão o trem a diesel.

O sistema ligará o Cabo de Santo Agostinho, pelo novo Terminal de Ônibus do Cabo, com a estação do metrô Cajueiro Seco, em Jaboatão. A tarifa será a mesma cobrada no metrô: R$ 1,70. “Integrado ao sistema de ônibus e do metrô, o passageiro pode sair do Cabo até Olinda e Paulista. Também pode ir para Jaboatão. Com um padrão de qualidade assegurado”, pontua Leonardo. Cada trem poderá transportar 600 pessoas por viagem. Quando os sete estiverem em atividade, em fevereiro de 2011, podem chegar a 80 mil passageiros/dia. Com contrapartida Federal e Estadual, o investimento é de R$ 59 milhões na compra dos veículos e R$ 62 milhões para estruturação do trecho de 18,4 quilômetros.

Paralelamente a isso, correm os projetos de BRT (Bus Rapid Transit) ou TRO (Trânsito Rápido de Ônibus) - corredor exclusivo de ônibus que reduz o tempo de embarque e desembarque de passageiros. O primeiro trecho é o Leste-Oeste, já existente entre a Praça do Derby e a avenida Caxangá, que será requalificado para implantar o chamado “ônibus do futuro” - concepção de estações-tubo, embarque em nível, pagamento antecipado e canaletas exclusivas, com capacidade para atender 180 mil passageiros/dia. O outro trecho é o Norte-Sul que ligará Igarassu a Jaboatão dos Guararapes, na Estação de Cajueiro Seco, onde está sendo construído um Terminal de Ônibus, integrado com o metrô e o VLT.

Serão 300 mil pessoas atendidas por dia. Em um corredor convencional de ônibus, a velocidade média do veículo é de oito quilômetros por hora, enquanto com o BRT fica em 30 quilômetros por hora. A avenida Norte também receberá um corredor de BRT ao longo dos oito quilômetros, que beneficiará 118 mil pessoas diariamente. Somente essas três intervenções correspondem a 33% da população que hoje utiliza transporte coletivo na RMR (1,8 milhão).

Os projetos aguardam o aval do governador Eduardo Campos para serem licitados. A expectativa do Grande Recife Consórcio de Transporte, que está à frente dos projetos, é que ao menos uma das obras de corredores seja licitada e iniciada ainda este ano. Somados, os três projetos representam um investimento de R$ 473 milhões (R$ 75 milhões para o Leste-Oeste; R$ 200 para o Norte-Sul; R$ 198 milhões para a avenida Norte).

“Primeiro, entra com o BRT, que executa a parte mais cara do projeto, justamente a desapropriação e construção da estrutura. Futuramente, depois de implantado, quando o sistema estiver já saturado, se implanta o VLT para aumentar a capacidade e a velocidade dos veículos, pois basta apenas implantar os trilhos e comprar os veículos”, adianta Leonardo Beltrão.

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Projetos sem soluções práticas

Para o engenheiro e chefe do Departamento de Arquitetura e Engenharia da UFPE, César Cavalcanti, hoje em dia, executar um projeto urbano que não inclui acessos para pedestres, passageiros e ciclistas vai na contramão das soluções para o trânsito. “Ao se abrir uma avenida ou construir viadutos, você está dizendo para o cidadão comprar mais carro”.

A obra de duplicação das faixas do viaduto Capitão Temudo, na Joana Bezerra, está para ser entregue aos recifenses no final de dezembro. Porém, sem pistas de ciclismo ou corredor para pedestre. “Essa intervenção vai desafogar o trânsito naquela área, que está saturado. Mas se não pensar no transporte coletivo e alternativo, voltará ao mesmo problema. A médio prazo, serão mais carros circulando por ali, consequentemente, os mesmos engarrafamentos”, pontua.

A presidente da Empresa de Urbanização do Recife (URB), Débora Mendes, justifica esta lacuna no projeto por ter sido elaborado em 1976. “Como é mais antigo, não houve esse cuidado. As demais obras agora estão sendo pensadas dentro do novo conceito de mobilidade, como a Via Mangue e da avenida Norte. Se isso vai ser contemplado no futuro, pode ser. Mas em paralelo estamos pensando soluções para o trânsito em conjunto com outros órgãos”, esclarece.

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